RELATOR DO PROJETO DA PRATICAGEM NO SENADO DIZ QUE, APÓS VISTA, ACORDO DE VOTAR PL DA CÂMARA PODE NÃO SER CUMPRIDO
Dimmi Amora, da Agência iNFRA
Dimmi Amora, da Agência iNFRA
O senador Weverton (PDT-MA), relator no Senado do PL 757/2022, aprovado na semana passada na Câmara dos Deputados, que regulamenta os serviços de praticagem no país, afirmou que o acordo para votar a proposta da Câmara poderá não ser cumprido, após um pedido de vista da proposta durante o processo de votação na reunião da CI (Comissão de Infraestrutura) nesta terça-feira (28).
Segundo ele, houve um acordo que envolveu o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para que os senadores aprovassem na CI, em caráter terminativo, a proposta que fosse aprovada pelos deputados (o PL 757/2022). E, com isso, o PL 877/2022, aprovado no Senado em março deste ano e que está pronto para ser votado pelos deputados, não seria analisado.
O PL 877/2022 prevê que a Marinha fará a regulação econômica da praticagem sozinha. Já o PL 757/2022, da Câmara, teve uma mudança em relação a esse tema e prevê que a Marinha fará essa regulação, mas poderá criar uma comissão temporária para analisar práticas de abuso, com integrantes da ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários).
"Caso a Câmara, daqui para a semana que vem, aprove o que está lá, infelizmente, perderam a oportunidade de ter incluído a ANTAQ como comissão revisora. E não venham dizer que foi um by-pass, porque sabiam do acordo construído lá", disse Weverton, após o senador Zequinha Marinho (Podemos-PA) pedir vista por uma semana da proposta, alegando que foi um pedido da Marinha, que informou não ter condições de cumprir o que está proposto no PL 757/2022.
Conforme informou a Agência iNFRA, a Marinha afirmou em nota neste domingo (26) que a proposta aprovada na Câmara coloca em "grave risco a segurança da navegação", "inviabiliza" a concessão de isenção de praticagem e "torna perene um monopólio de mercado".
A declaração de que a Marinha não quer fazer a regulação do setor também foi contestada por Weverton, dizendo que o órgão já faz isso e que as agências "não têm prestígio do Congresso" para fazer o que a Marinha já faz.
Acordo controverso
Weverton também afirmou que a Marinha participou das discussões com os representantes da Câmara e estava de acordo com o texto aprovado. Esse acordo é motivo de controvérsia, já que os armadores, que são os contratantes dos práticos para fazer manobras na entrada e saída dos portos, afirmam que não fizeram nenhum tipo de acordo sobre o PL e indicam que vão judicializar o processo.
A Agência iNFRA apurou com participantes das negociações que, de fato, havia representantes da Marinha nas discussões que não se posicionaram contra o texto construído pelo deputado Coronel Meira (PL-PE).
Também estavam nas discussões representantes das associações de portos ATP (Associação de Terminais Portuários Privados) e ABTP (Associação Brasileira dos Terminais Portuários), além de integrantes de associações do agro, como a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) e a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária).
De acordo com um participante, ao final das dicussões, que de fato contaram com a presença do presidente da Câmara, houve um indicativo de que, se não houvesse um acordo para uma proposta da Câmara, seria votado o texto integral do Senado (PL 877/2022).
Com isso, os representantes das associações do setor produtivo preferiram deixar seguir a proposta que estava na mesa de negociação, a que prevê a ANTAQ participante da comissão, a ter uma lei que previa somente a Marinha como reguladora. Segundo um dos participantes, era a escolha entre "o péssimo e o muito ruim".
Ainda segundo ele, sem apoio do governo, incluindo a Marinha, que lavou as mãos para o projeto, mesmo com um recente estudo do Ministério da Indústria e Comércio tendo apontado a praticagem como um item a ser atacado para reduzir o custo Brasil, a escolha foi por aceitar o projeto da Câmara. Para ele, a nota da Marinha é tardia e não deve mudar o curso do PL 757/2022.
Serviço necessário
Os senadores que são a favor do projeto também rebateram os argumentos de aumento de custos por causa da praticagem e que haja monopólio. Lucas Barreto (PSD-AP) defendeu o serviço de praticagem como necessário, lembrando que os navios podem entrar pela foz do Amazonas sem prático, mas não o fazem.
"Os que fizeram, encalharam. Um desastre na foz do Amazonas pode contaminar toda a área", disse o senador.
Ele afirmou ainda que pretende colocar para votar em 2024 o PL 1.205/2022, de autoria dele, que veda empresas de navegação de contratarem diretamente o transporte rodoviário de contêineres de suas subsidiárias, o que para ele significa a constituição de um monopólio no setor.
Mentira
Na Câmara, o relator do projeto, deputado Coronel Meira, foi à tribuna para criticar a Marinha pela nota que foi publicada contrária ao projeto. Segundo ele, a Marinha já faz a regulação econômica quando é determinada por lei. Segundo ele, a Marinha "mente descaradamente" contra o Parlamento. O deputado citou ainda que poderá pedir uma CPI da Cabotagem.
"Nós definimos e eles têm que cumprir. Não cabe a vice-almirante algum questionar a decisão deste Parlamento", disse o deputado.